
Como explicar que a montadora, celebrada por sua qualidade e seu detalhismo na produção, não tenha evitado um recall de 8,5 milhões de carros, que culminou na maior crise de sua história?
Em outubro de 2009, durante uma de suas raras entrevistas, Akio Toyoda, presidente mundial da Toyota e neto do fundador da empresa, fez uma afirmação que deixou jornalistas e especialistas do setor automotivo estarrecidos. A todo-poderosa Toyota, que havia destronado a General Motors do posto de maior montadora do mundo, símbolo máximo da pujança do Japão pós-guerra, estava, segundo o herdeiro, "ávida por uma salvação". A frase era uma clara referência ao livro How the Mighty Fall (ou "Como as poderosas caem", numa tradução livre), lançado meses antes pelo guru dos negócios Jim Collins. Segundo Collins, antes de chegar à ruína, as empresas passam por cinco estágios. A Toyota, segundo a afirmação de seu presidente, estaria no quarto - o quinto e último passo seria a "capitulação à irrelevância ou morte". Embora chocante, a declaração parecia se referir apenas ao desempenho financeiro da montadora - como resultado da crise que tragou o setor automotivo no mundo desenvolvido, a Toyota. havia acumulado um prejuízo de 4,4 bilhões de dólares em 2008, algo que não acontecia desde os anos 50, e as receitas de janeiro a dezembro de 2009 viriam a ser 20% menores que as do mesmo período no ano anterior. Com o recall de 8,5 milhões de carros recentemente anunciado, porém, a impressão é que Toyoda sabia que o pior ainda estaria por vir.
Pressionada por uma série de acidentes envolvendo um defeito nos pedais do acelerador de seus principais modelos, a montadora convocou nos últimos quatro meses um dos maiores recalls da história do setor automotivo (o Brasil não foi afetado). "Para uma companhia acostumada a vencer como a Toyota, a crise atual parece uma catástrofe", diz Jeffrey Liker, professor de engenharia industrial na Universidade de Michigan que há 25 anos estuda a montadora japonesa. A situação é mais grave nos Estados Unidos, o maior mercado da Toyota no mundo e de onde vem quase um terço de seu lucro. Só no país são mais de 6,5 milhões de unidades afetadas, de modelos populares como o Corolla Camry à picape Tundra - recentemente o incensado híbrido Prius se juntou ao grupo. O impacto foi imediato. As vendas da Toyota no mercado americano caíram 16% em janeiro, o pior desempenho entre as grandes montadoras. Como resultado, a participação de mercado da Toyota caiu de 18% para 14%, o menor nível desde 2006. "Um recall dessa magnitude abala a confiança do consumidor", diz James Bell, vice-presidente de análise de mercado da consultoria americana KBB, especializada no setor automotivo. "Isso sem falar no prejuízo financeiro." Segundo a Toyota, a maratona de consertos deverá custar 2 bilhões de dólares só no primeiro trimestre - as 1 200 revendas da marca nos Estados Unidos estimam que esse número seja até três vezes maior.
A concorrência fez a festa diante da tragédia que atingiu um rival que a humilhou nos últimos anos. Quase imediatamente após a convocação do primeiro dos três recalls, no fim de outubro, a GM, a Ford e a coreana Hyundai lançaram uma agressiva campanha de descontos destinada a convencer os consumidores a trocar seu Toyota por suas marcas. Ao oferecer bônus de até 1 000 dólares, a Ford conseguiu aumentar as vendas em 25% em janeiro - e retomar a vice-liderança nos Estados Unidos, perdida para a Toyota em 2007. Até a combalida General Motors, se viu no direito de tripudiar sobre a concorrente. No Salão do Automóvel de Detroit, realizado no início deste ano, Bob Lutz, vice-presidente do conselho de administração da GM, afirmou categoricamente que "a tese de que os carros japoneses têm mais qualidade não parece mais tão verdadeira".
Portal Exame
Por Marianna Aragão | 17.02.2010 | 17h15